Jovens voluntários descobrem artefactos pré-históricos na Ota

Jovens voluntários descobrem artefactos pré-históricos na Ota

O Canhão Cársico da Ota está a ser alvo de uma intervenção arqueológica por parte de alunos voluntários que se encontram em diversas fases do seu percurso académico. O Jornal Nova Verdade acompanhou uma manhã destes estudantes durante um dia de escavações.

Por volta das seis da manhã um grupo de arqueólogos voluntários começa a subir a encosta do Canhão Cársico da Ota. No topo espera-os mais um dia de escavações à procura de vestígios deixados por antigas civilizações. Para os ajudar nesta missão contam com pequenas escovas e vassouras que servirão para tirar a terra àquilo que podem ser achados com mais de 3 mil anos. A equipa é composta por jovens portugueses, vindos de várias universidades do país, e dois espanhóis, de Madrid e Galiza. Todos eles estão em diferentes períodos da sua formação. Há alunos de licenciatura, mestrado e até de doutoramento, que vêm até aqui à procura de uma oportunidade para desenvolver as suas capacidades em campo.

Este projeto iniciou-se o ano passado e visa compreender as dinâmicas construtivas e ocupacionais do sítio da Ota, mais especificamente no terceiro e quarto milénio antes de Cristo, ou seja, das povoações pré-históricas. André Texugo, um dos responsáveis pelo projeto, é residente no concelho de Alenquer e está na fase final da sua tese de Doutoramento. “Neste momento estamos centrados em compreender as estruturas que temos no sítio que são Calcolíticas, ou seja, da idade do cobre, 3000 anos antes de Cristo”, explica André.

O trabalho está dividido em duas áreas distintas. Os voluntários baseiam-se no trabalho desenvolvido anteriormente por Hipólito Cabaço, famoso arqueólogo alenquerense, através do qual descobriu que várias populações passaram por essa mesma área e aí permanecerem. “O primeiro setor é destinado à compreensão da área central do sítio e daquela que tem maior dinamismo ocupacional”, reforça André.

No outro setor, os trabalhos concentram-se na intervenção de um muro com 170 metros de comprimento para compreensão do período cronológico e quais as povoações que habitaram o espaço. “Estamos a tentar perceber se ele teve remodelações, construções ou reaproveitamentos posteriores. Como tivemos imensas populações que estiveram aqui no sítio, desde a idade do bronze, do ferro, romano- republicano, romano-imperial, medieval-islâmico, medieval-cristão, elas podiam ter reconstruído ou reaproveitado o muro para fazerem novos traçados, novas formas de proteção do sítio”, diz André Texugo, um dos responsáveis do projeto.

André Texugo mostra o local das escavações

A compreensão desta área passa pela relação entre o muro e uma estrutura circular, como uma torre, que o arqueólogo alenquerense, Hipólito Cabaço, identificou como uma estrutura própria para defesa do sítio. Aqui, os arqueólogos voluntários pretendem descobrir de que forma a torre se relaciona com o muro, como explica André, “estamos a sondar uma pequena área da torre e a ver como é que o
muro se encosta. Queremos saber qual o mais antigo e como que é que eles se relacionam”. As escavações, que começaram no dia 3 de Agosto, terminaram no dia 28 de Agosto. Até agora para André Texugo o balanço tem sido muito positivo. O voluntário relata que em apenas uma semana, para além da construção circular, descobriram uma estrutura por cima da torre, que pertence ao período romano, e que colapsou. “É bastante interessante perceber que várias ocupações estão representadas neste derrube, que é massivo”, afirma André.

No meio do derrube foram encontrados diversos materiais de construção, nomeadamente tijolos, e cerâmicas decoradas, conhecidas por “folhas de acácia” que fazem parte da identidade cultural das populações calcolíticas na península de Lisboa. “Essas decorações são muito próprias de cá, e este ano conseguimos encontrar também duas pontas de setas, que são calcolíticas e feitas em pedra”, conta o
arqueólogo, “no ano passado não tínhamos nada disto e escavámos quase três semanas”, confidencia André. Ao todo os voluntários já têm na sua posse 25 artefactos. Alice Baeta, estudante da Universidade de Letras do Porto, voluntária do projeto pela primeira vez afirmou que o ambiente de entreajuda do grupo facilita o trabalho, “ensinam muitas coisas, ajudam- nos a participar na interpretação do sítio, não é só o trabalho de escavar, está a ser uma experiência muito boa”.

Frederico, estudante da Universidade Clássica de Lisboa, também se está a estrear nas escavações da Ota. Relata que a experiência “é muito boa, a equipa é jovem e tem muita qualidade, além de que temos sido muito bem recebidos aqui, o balanço só pode ser positivo”. A equipa conta que já foi abordada várias vezes pela população, que tem demonstrado interesse pelo projeto e feito perguntas curiosas sobre as descobertas feitas. “Acho que está tudo encaminhado para que daqui a alguns anos o sítio da Ota possa ser um ponto marcante, não só do calcolítico como também do mundo romano”, diz o voluntário Frederico.

Em Setembro, o grupo vai realizar um laser scan com acesso a um drone que consegue ultrapassar a contingência da vegetação, de forma a conseguir mapear a aérea como se fosse um raio-x à superfície do território. A iniciativa terá como parceiros o Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa e o Instituto de Geografia e Ordenamento do Território. “Nos próximos anos, se continuarmos com os mesmo protocolos vamos avançar para áreas mais visiveis, mais recentes e mais facilmente entendíveis por nós, que não sejam da pré-história, mas sim do romano e da idade do ferro, que vão trazer certamente outro dinamismo ao sítio”, conclui André Texugo.


Hugo Sampaio dá concerto no local

Hugo Sampaio em concerto nas escavações da Ota

A manhã foi marcado por um concerto do artista Hugo Sampaio. A oportunidade surgiu depois de André Texugo ter pedido em direto na Rádio Voz de Alenquer o tema “Pega na Lambreta” do artista. Posteriormente, o grupo voluntário enviou um vídeo do momento ao cantor e este aceitou fazer um pequeno concerto para os jovens no local da escavação. “Foi bom estar aqui, cantar os meus temas e improvisar ao vivo para eles. Já tinha saudades de estar ao pé do público”. Hugo conta ainda que quer regressar aos palcos e em breve irá desenvolver um projeto de dança terapia e música terapia, em espaços ao ar livre.

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